bikenauta

Março 15 2014

Chegar a Santa Maria Madalena por estradas de chão é uma aventura para nunca mais se esquecer.

 

Tudo começou quando a revista Bicicleta publicou um pedal organizado para ciclistas estrangeiros e que foi batizado como, Para os Braços de Dercy. Você sabe, Dercy Gonçalves nasceu nessa pequena e linda cidade. Deixar o asfalto e se embrenhar em caminhos desconhecidos exige detalhado planejamento. Estudar a trilha pelo Google Earth foi fundamental. Depois de uma tentativa frustrada o objetivo, pedalar um dia inteiro subindo uma serra, foi alcançado.

 

A serra de Madalena é diferente, por exemplo, da serra da Bocaina, vizinha daqui. Mas ambas surgiram há 500 milhões de anos.

- Hi Zé, lá vem você com ciência, conta logo a história!

É fundamental para um ciclista de mountain bike entender um pouco a geologia de nosso planeta. Assim é que àquela época várias massas continentais se juntavam para formar um só continente, Gondwana. Foi um tempo titânico, já que as placas continentais se chocavam, a mais forte dobrando a outra e subindo nela. O planeta era abalado por inimagináveis tremores de terra. Esses choques provocaram rachadura o que possibilitou ao magma do núcleo da Terra escapar e subir empurrando a litosfera para cima. Na Bocaina a rachadura foi contínua e formou um batólito, uma serra comprida que vai de Rio Claro até Jacareí, mais de 300 km de extensão. Já em Madalena as rachaduras foram pontuais e o granito expulso do centro da Terra formou imensos blocos de pedra,

megalitos colossais, espalhados como gigantescas velas de um bolo desmesurado, o que é chamado de craton. Para chegar na cidade de Dercy o ciclista tem de rodear esses gigantes petrificados. São de formas distintas, aquele ao fundo foi chamado de peito de Pombo.

Outro é um espeto desmedido, outro parece um cone, e por aí vão se sucedendo.

Aproveita-se o ônibus para vencer os 300 km que separam o Vale do rio Paraiba do Sul de Macaé.

O dia começava, e que dia lindo para viver uma aventura. A bicicleta rodava mansinha pela beira-mar e uma aragem fresca e o cheiro do mar atiçavam a vontade de começar o caminho.

O ciclista pegou a ciclovia que passa pelo aeroporto e seguiu as placas, informando-se com os moradores a toda hora. Enquanto aqui a serra do Mar fica praticamente encostada na praia, lá tem de se pedalar 40 km para chegar ao pé da serra.

Só asfalto. Um cego, sozinho numa parada de ônibus da BR, pediu-me para ficar um pouco com ele e ver o coletivo que ia pegar. Nesse intervalo explicou que logo a frente começava uma estrada de chão que saía lá bem em cima na serra, já próximo a Conceição de Macabu. Prestando um favor e recebe-se outro. Depois que ele foi embora olhando as anotações do trajeto, lá estava a estrada do Quilombo de Santa Maria. Até ali se gastou 2:30 h. Os imensos blocos de pedra vigiavam o avanço do ciclista.

Um lanche demorado em Conceição, informações recebidas, o ciclista continua o caminho pelo asfalto. Era 10:30 h de uma manhã cheia de luz e sem muito calor. Nuvens se acumulavam na serra. Dois km a frente, numa ponte em curva, entra-se em outra estada de terra, o caminho da cachoeira da Amorosa.

Bem lá em cima o ciclista entrou no rio para tomar um banho gelado. Quando se pedala sem a companhia de outros ciclistas é indispensável o apoio do anjo da guarda, por quem se deve rogar a Nossa Senhora, rainha que é de todos os anjos. Esse bom companheiro é muito competente em nos livrar de perigos adiante, mas para tirar nossas fotos não é lá essas coisas. Ele tirou várias fotos do banho do ciclista e só essa ficou mais ou menos.

Num trailer serviu-se de uma porção de peixes e imediatamente lembrou-se que igual ao seguidores de Jesus, Deus entre nós, estava sendo alimentado por dois pãezinhos, devorados em Conceição, e sete peixinhos na Amorosa. Ainda era cedo, 12:30, mais ainda tinha muito chão pela frente.

Subindo um trilho difícil, empurrando a bike, chega-se ao leito de uma antiga estrada de ferro. Esse é sempre um caminho bom de se pedalar. O aclive é suave e pode-se acompanhar os vales ficando cada vez mais lá embaixo.

Mas implantar uma ferrovia contornando as encostas das pedreiras foi uma formidável obra da engenharia humana que, abandonada, apresenta surpresas.

Trechos alagados e outros que simplesmente foram levados morro abaixo por alguma enxurrada é uma possibilidade que o ciclista acabou encontrando. Então foi preciso pegar um trilho cheio de pedras que subia muito forte e só dava para empurrar a bike.

Quando se dava a volta num dos megalitos imensos e pensava-se que vinha a descida, via-se a subida continuar inexorável. O céu escureceu com nuvens negras e caiu um toró formidável.

Abrigado sob uma touceira de bambu via o anjo da guarda, mais previdente, querendo fugir de um raio, sentado na chuva me olhando. Mas não ouve relâmpagos, só a chuva torrencial.

Numa fazenda perdida entre as serras o dono informou que o asfalto estava logo à frente, mas que seria melhor não entrar na estrada para Madalena, mas seguir adiante até um lugar chamado, Dr. Loreti – a indicação estava na minha planilha – pois dali continuava o leito férreo o que pouparia uma subida forte e muito longa. Assim é que às 17 h estava entrando em Madalena e descendo uma forte ladeira para chegar na praça principal, à pousada e à um bom restaurante.

Que dia inesquecível! Obrigado, meu Deus.

publicado por joseadal às 14:19

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