bikenauta

Dezembro 20 2012

O início da década de 1970 foi rico para a música brasileira. Casa no Campo, de Zé Rodrix, tornou-se meu hino de bem viver. Nela, um verso diz: “e tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais”. Os antigos diziam que ter saúde vale mais que possuir fortuna. Tudo isso é bem compreensível, mas só nos damos conta da verdade intrínseca quando ficamos doentes e o limite do que nosso corpo aguenta se torna uma certeza. Foi o que se deu no terceiro dia, domingo, 16/12/2012, do Desafio Volta Redonda-Rio das Ostras.

Deixamos Teresópolis com um sol fraco e tocamos a pedalar. Deveria ser o dia mais fácil, talvez o mais bonito, rodando pelo alto da serra dos Órgãos. Mas não foi. Para o amigo Pedrão por ter de esperar e aguardar o vagaroso Zé, e pra mim porque sentia o estômago revirar e as pernas pareciam carregar um saco de cimento em cada uma.

Era pra gente almoçar em Nova Friburgo e seguir para Lumiar, mas a hora do almoço chegou ao meio do caminho Teresópolis-Friburgo. Não podia nem ver comida e enquanto o amigo batia um pratão corri para o posto de saúde. A pressão estava boa, 13x8, mas devia ter uma intoxicação alimentar. Tomei um sal de fruta e um sorvete e fui me arrastando. Pensava nos colegas que às vezes vejo sofrendo em pedaladas difíceis. Como devem sofrer sentindo cãimbras, sentindo tonturas e não tendo forças para pedalar. Aprendi nesse dia a ter misericórdia as custas de muito desconforto.

Chegamos a Vieira, um belo vale repleto de plantações de hortaliças. Mas quanto mais avançávamos mais as montanhas pareciam intransponíveis. Com um restinho de humor perguntei a um sitiante: onde fica o túnel?, ele riu.  Rezei os dez Pais-nossos e me senti forte para empurrar a bike até lá em cima.

Mas nesse momento, olhando minha cara que estava verde, o amigo Pedrão largou a bicicleta na beira da estrada e se embrenhou numa mata. Ele é neto de índio e tenho quase certeza de ter ouvido batidas de tambores e visto nuvens de fumaça subir ao céu azul lá pra onde ele havia se embrenhado. De repente, ele sai da macega com um ramo verde na mão, o rosto pintado para a guerra e uma pena de avestruz no capacete, e diz: cara pálida esverdeada, lava as folhas de Macaé e mastiga bem. Assim o fiz, amargava como fel. Pensei: agora estou pronto, que venha a serra!

Não sei como e estávamos rodando margeando o córrego da avenida de Nova Friburgo e entrando altaneiros – já me sentia um pouco melhor – na praça central cheia de gente passeando e tomando sorvete. Procuramos o hotel em que havia me hospedado 10 anos antes e depois de um banho fomos andar no meio do povo. Lumiar ficou para o dia seguinte. No último dia ao invés de 70 km teríamos de rodar cem. Mas para isso rezei os 10 Padres-nossos.

publicado por joseadal às 11:46

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