bikenauta

Março 10 2013

Há momentos mágicos. São instantes que transcendem a realidade que cerca uma ação humana. Alguns desses repercutem por séculos. Como daquela vez, perto de São Paulo, quando a comitiva do príncipe regente fez alto à ordem do oficial. Formados em meio círculo, os cavalos pisoteando o chão e as dragonas dos soldados rebrilhando ao sol, o monarca saca a espada, que sai da bainha fazendo um chiado de metal, e grita: Independência ou Morte. Ou como ontem, 09/03/2012, quando atravessamos uma velha ponte sobre o rio Preto.

Quando seguimos pela estrada de chão sombreada de árvores centenárias era como se andássemos para trás no tempo. Numa curva o casario de uma antiga cidade apareceu lá no alto, fulgurando com a claridade da manhã. Em nossas bikes íamos subir até lá em cima, pois São José das Três Ilhas é uma acrópole, um lugarejo construído no alto de uma serra.

Não há sensação igual à de se sentir todos os músculos do corpo trabalhando para nos impulsionar por um aclive forte de morro. A cada volta da estrada o casario surgia mais próximo e voltávamos ao tempo sórdido da escravidão. Quando os músculos já ansiavam por um descanso eis que surge o calçamento de pé-de-moleque e a vendinha (a tataravó do supermercado) com os colegas que a sombra de goiabeiras tomavam suas bebidas bem gelada.

O caminho de pedra seguia cercado de casarões bem preservados. As capelas da via sacra surgiam a intervalos. Não foram construídas todas as estações, apenas cinco. Esse lugarejo, que no final do século XIX pertencia a Juíz de Fora, tinha naquela época um terçoda população da sede. Os grandes barões do café elegeram esse recanto no meio das colinas, de clima soberbo, para aí passaram a semana santa com as famílias.  

Uma calma benfazeja se derramou sobre aquele grupo estafado. Empurrando as bikes andamos fotografando as belas casas. Prédios tombados pelo Patrimônio Histórico de Minas Gerais são de uma beleza inigualável e nos transmitem a calma dos tempos passados.

Até que surge diante de nossos olhos maravilhados a esplêndida catedral de pedra castanha, a igreja de São José das Três ilhas. Observe bem, a parede de pedras de mão, logo abaixo do beiral, é arrematada com tijolos. As razões são três, uma delas ou todas juntas: a escravidão que terminou de um dia para outro e não havia mais aquela mão de obra, o madeiramento que se encaixaria melhor nos cubos de barro e o peso da construção que já apresentava fadiga no alicerce. 

O paciente ‘seu’ Geraldo, encarregado daquele patrimônio cultural tombado, abre a catedral com sua enorme chave de São Pedro e nos leva a ver maravilhas que resistem ao tempo. O verde das colinas com restos de matas nos grotões e os pastos nas encostas dá um ar bucólico ao lugar.

Desde o anjinho de carinha inocente e devota que guarda o jardim até a torre dos sinos, tudo percorremos, não mais ciclistas de mountain bike, mas peregrinos cristãos. De que está rindo o Zé? Da pose de ganso que o João2010 insistia em fazer para esconder os efeitos do tempo na sua bela face. Melhorou muito não, né? 

Mistérios cercam essa construção sacra, como as colunas de pedra inteiras que flanqueiam a galeria lá no alto. Foram amarradas com cordas que passavam por roldanas e eram puxadas por juntas de bois até seu lugar? Ou fizeram um morro de barro no meio da nave da igreja por onde eram arrastadas até em cima? Não souberam nos dizer.

E os buracos que o povo fazia entre as grandes pedras, arrancando as pedrinhas de rejunte, e enfiando neles os santinhos quebrados, venerados demais para ir parar no lixo?! De novo o colega João 2010 esticando a cabeça feito um ganso para tirar as rugas, pés-de-galinha e tantas outras imperfeições feitas pelo tempo.

Almoçamos uma comida da roça deliciosa e saboreamos um doce com pedaços de goiaba que estava uma delícia. O profesor Paulo Renato, de Valença, olha admirado o colega Nilson, depois de 'bater' três prataços, ainda se servir generosamente do doce de goiaba de 'dona' Nilza.

Ficamos por ali admirando a paz no meio daquelas serras. Cadê vontade de ir embora. Ah se tivesse uma rede por ali!

Mas o mundo apressado, longe dali, nos chama com insistência e a contragosto montamos nas magrelas e saímos daquele momento mágico, daquele lugar perdido entre a serrania.

 

publicado por joseadal às 13:33

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