bikenauta

Dezembro 22 2011

A expressão “achar um amigo” ou esta outra, “fazer uma amizade”,
denotam algum esforço. Dependendo da disposição ou tipo de personalidade a
tarefa pode parecer fácil ou muito difícil. Vou contar uma experiência como
exemplo desta segunda hipótese.

Estou em Saquarema, paraíso de praias e lagunas no nordeste
do Estado do Rio de Janeiro. Passo uns dias fora do cotidiano de trabalho.
Vinha do mercado carregando as compras na bike quando um sujeito passa por mim
velozmente. Normalmente deixa-se ir o apressado, ainda mais quando estamos em
um lugar como turistas, num ritmo de vida diferente dos nativos. Mas estou a
procura de um colega pra pedalar. Esta busca parte de certos princípios: 1) primordialmente o sujeito deve estar sobre uma bike;
2) a bicicleta não pode ser muito mais gasta do que a que estou usando emprestada;
3) o ciclista deve parecer alguém que pedala bem; 4) o pretenso amigo de ter vários indicadores
especiais que mencionados aqui parecerão preconceituosos. O cara que passou voado
se encaixava no perfil de um bom colega para um mountainbike. Se quisesse
encontrar um amigo tinha que ser rápido. Dei um assobio com dedos enfiados na
língua. O cara freou e se voltou. Pronto, fácil assim.

Junior é bombeiro salva-vidas vizinho a casa em que estou
hospedado. Gosta de fazer uma trilha e por acaso (?!) convidara dois amigos da
mesma profissão para pedalar no dia seguinte. Tô dentro!, me convidei. Peguei o
celular dele para manter contato e cada um continuou seu caminho: eu
pedalando na coroa média e ele correndo na coroa grande e na menor relação.
Agora era curtir a praia até o dia seguinte.

Antes das seis horas já estava andando com Malu, depois tomei
um café com leite acompanhado de um pratão com banana amassada, mel, aveia e
linhaça, deixei o pessoal dormindo, montei na velha bike e sai com o aro
empenado raspando de leve no freio. A vila com a barra de entrada da água para
a lagoa, a igreja de Nossa Senhora de Nazaré no alto do rochedo e um homem
jogando sua rede era uma imagem pra ser guardada, tanto na retina quanto no computador.
Saquei minha máquina e fiz pose de pescador. Passei pela ponte e cheguei na
praça do encontro com os novos amigos. Mas cadê eles?? Liguei pro celular.

Logo estava com os novos amigos e conhecendo o Mexicano. Saímos
os três pela beira mar forrada de paralepípedo. O Sol levantou-se mais um pouco para
nos ver pedalando e conversando. Zé botou as ‘manguinhas de fora’ falando dos
pedais que fizera no ano anterior subindo sozinho (e Deus) a serra do Mato
Grosso nesta mesma ‘magrela’ velha como eu. Senti uma leve troca de olhar entre
os dois, algo como uma troca de mensagem em código entre dois militares: esse cara mente
mais que pescador em Saquarema! Então, para “não perder os amigos” recentemente
encontrados tive de me esforçar nos pedais. Mesmo tirando fotos não os perdia
de vista. Ah sim, ficou combinado que íamos só (só??) até Ponta Negra. Não
podia reclamar, dava pra vê-la diminuta e meio encoberta por um nevoeiro.   

Passamos por Jaconé e continuamos. A ponta ainda estava
longe. O mar verdinho batia na praia marcando nosso ritmo em compasso binário alegro vivíssimo.

O caminho era pouco trafegado e depois de uma porteira a estrada calçada por bloquetes e ensobreada
de amendoeiras era só para os três ciclistas. A ponta, um acidente geográfico
criado com arte pela mãe Natureza era agora uma muralha alta dentro do mar à
nossa esquerda. Na entrada da cidade tomamos o caminho da subida. Acompanhar
dois bombeiros que se exercitam todos os dias, que estão na faixa dos quarenta
anos (que deixei pra trás faz tempo) e em bikes de alumínio com 27 marchas, em
meu camelo de ferro enferrujado e 18 marchas não era tarefa fácil, mas quem não
quer “desfazer uma amizade” tem de acompanhar. Incorporei o amigo Jorginho, fiquei de
pé e fiz força nos pedais. Logo, a cidade e sua barra de rio se mostrava bela e
colorida lá embaixo.

Ao longe, seguindo a linha da praia e esforçando a vista,
aparecia a Pedra da Gávea da qual passei pertinho há alguns domingos. Comentei
o fato e agora eles trocaram um olhar que parecia dizer: é, o coroa deve ter
andado lá mesmo!

Na construção de uma nova amizade precisa-se contar com a
boa sorte. Se o tempo tivesse virado e uma chuva fria estivesse castigando a
gente a “amizade teria esfriado” na hora. Mas se as circunstâncias favorecem a “amizade
se firma”. E quer coisa mais ‘boa sorte’ que aparecer duas baleis esguichando
água não muito longe da costa?! Ficamos ali, no alto da Ponta Negra e seus
rochedos enegrecidos pelo tempo, olhando o mar sem fim rebrilhando e dois seres
antigos, duas baleias lançando alegres jatos de água para o céu azul. Foi assim
que se “selou uma nova amizade”.  

publicado por joseadal às 11:21
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