bikenauta

Julho 01 2012

Ela é majestosa e misteriosa, a serra da Bocaina. Suas
encostas são forjadas em inúmeras vertentes e o homem, incansável conquistador,
rasgou vários caminhos em suas encostas. Neste sábado, 30/06/2012, subimos a
serra para pedalar por algumas dessas trilhas sombreadas.  

Mas a montanha não aceitou resignadamente esta intervenção do minúsculo ser que veio para dominar
e subjugar o planeta. Com forças dinâmicas que a Natureza usa para desmantelar
a ordem das construções humanas os caminhos sobre a serra ficam quase
intransitáveis. Usando o vento, a chuva torrencial, as plantas, o calor do Sol
e a ação dos animais, em especial dos insetos, a serra como que quer sacudir de
seu lombo tudo o que o homem constrói nela. É o Caos lutando com a Ordem. A bicicleta
- híbrido de máquina e de humano, ferragens forjadas e um motor de carne, impulsionado
por uma energia da mente – vence, ultrapassa, todos os efeitos do embate do ser
humano com a montanha.

Saímos de carro quando ainda estava escuro. Correndo pela
antiga estrada dos Tropeiros assistimos a luz empurrar as trevas para o Hades,
a claridade vencendo a escuridão. Chegamos em São José do Barreiro que ainda
dormitava, tiramos as bikes dos carros e fomos para um café repleto de coisas
gostosa, ali mesmo junto a praça. Muita conversa animada de colegas de longa
data que se encontravam depois de algum tempo sem se ver. A expectativa da
aventura, a antecipação do esforço desmedido que teríamos de usar, aumenta a
adrenalina e faz todo mundo agitado e falante.

Logo os 26 ciclistas se põe a subir o caminho bem cuidado que
leva a Bocaina. Os adultos jovens e experientes ciclistas de competição logo
nos deixam para trás. A bela cidade histórica vai ficando cada vez menor a cada
volta que corta os morros. Estes são como cortezões que cercam o soberano em
sua sala do trono. São 27 km até a entrada do Parque Nacional da Bocaina, só os
últimos cinco quilômetros são lá em cima, já no platô.

Um colega que veio do Rio para pedalar com a gente vê no computador da bike que estamos numa inclinação em que se sobe 12 m a cada 100 m
percorridos. Passa a primeira hora e chegamos propriamente ao trono do Senhor
Tectônico. O caminho tem muitas rochas metamórficas (sedimentos comprimidos e
refundidos em rochas novamente) aflorando, o que torna maior o esforço. Além de
estar levando a bike num plano bem inclinado ainda se tem de ultrapassar essas
rochas que sobressaem do leito da estrada.

Começamos a subida às 7:30 e só às 10 h passamos pelo
quilômetro 15. O visual a nossa direita é maravilhoso. O vale do rio Paraíba do
Sul com sua calha engrossada pela barragem do Funil rebrilha com o sol. Do
outro lado, defrontando a Bocaina, a Mantiqueira fecha nossa região, uma das
mais belas e variadas para a prática do trekking e do ciclismo de mountain bike.

 

Nesses 15 km subimos dos 400 m do nível do mar para 1.300 m. A serra é
implacável, não dá planos longos para se recuperar o fôlego. É subir e subir ou
parar para descansar, fotografar, beber água, comer um biscoito ou uma barra de
cereal. Mas no nosso universo de quatro dimensões o Tempo é uma ampulheta em
que cada minuto escorre irrefreável. E há tanta coisa bela pra se ver, como este cogumelo

que parece um doce ou um efeito de desenho animado.

Ultrapassamos a última crista. O céu é de um azul muito
intenso. O ar está frio, seco e puro. Cada célula do corpo do ciclista é, por
fim, alimentada com a mistura certa para a vida. Os gases, Nitrogênio,
Hidrogênio, Oxigênio e outros não carregam partículas (talvez raríssimas)
partículas fabricadas pelo homem e cujos átomos estranhos ao nosso organismo,
apressam o envelhecimento, modificam o DNA e causam cânceres. O ar puro e frio
vai a cada alvéolo dos pulmões e sai carregando impurezas e nos deixando mais limpos.

  

Os guardas  florestais examinam nossos documentos e nos fazem assinar uma declaração de que não vamos
poluir, incendiar ou mexer com a ecologia do parque. E nos perder nem pensar!
Eles querem cumprir seu dia de trabalho burocraticamente e sem necessidade de
sair com o jeep aos solavancos procurando por malucos descuidados. (foto do amigo Fabiano66)

Para entrar, pernoitar em alguma pousada ou atravessar o Parque é preciso telefonar ou
passar email com nome, CPF, Identidade e a intenção da visita. Mas este canto do mundo

merece uma visita, porque é lindo.

Dali do portal do Parque até a pousada Bocaina onde fomos
almoçar foram mais vinte longos quilômetros. Teve muita descida cheia de
obstáculos: pedras soltas, regatos, buracos feitos por animais, valetas e lama.
Ladeiras pelo trajeto eram inevitáveis. Saímos do Portal às 11:30 e só chegamos
na casa perdida no meio do nada às 14:00. Bikes descansavam junto ao varandão
ou encostadas aos bancos de madeira onde almocei com o prato na mão preferindo
o sol que aquentava pouco ao ambiente gelado da sala de refeições. A mata
cercava tudo. Um cachorrinho brincava com os ciclistas esgotados.

(foto de Fabiano66 porque minha máquina caiu comigo dentro de um riacho)

 

Saímos dali às 15 h para descer, mas pensando numa subida
forte de 5 km que ainda teríamos de vencer e preocupados com a noite que
infalivelmente enfrentaríamos. Descer a ladeira interminável, esburacada e
cheia de pedras soltas na escuridão foi uma outra aventura. (entardecer na lente artística de Fabiano66)

As lanternas presas ao guidão jogavam um facho a nossa frente, mas Zédestrambelhado preferiu descer
com muita atenção, instinto de morcego e agradecido com o farto luar que tudo
clareava com a cor da prata. Quando, finalmente, depois de uma curva, já no pé
da serra, demos com as luzes dos postes de rua em Arapeí, gritamos feito doidos,
de alegria e de alívio. A serra, invisível em seu manto de escuridão,
provavelmente, sorria por ter nos dado tantos momentos de perigo e de auto
superação nos tornando Filhos de Deus mais plenos.

publicado por joseadal às 14:28

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