bikenauta

Dezembro 23 2012

Sabe como é um fim de festa? A chegada é uma euforia só, “tudo é divino, tudo é maravilhoso”, como diz o poeta Belchior. Mas, lá pra diante a festa fica como canta Zeca Pagodinho: “Fui no pagode, Acabou a comida, Acabou a bebida, Acabou a canja, Sobrou pra mim, O bagaço da laranja”.

Nem sempre, porém. Na Galileia, no vilarejo Caná, a festa de um casamento chegava ao fim e o vinho terminara. A viúva do carpinteiro José disse aos copeiros: Faça tudo conforme meu filho mandar. O filho de Maria, a virgem de Nazaré, pediu que enchessem três bilhas grandes de água e, num milagre, transformou-a em vinho [quem tem ouvidos para entender, entenda]. João, o apóstolo mais jovem, conta: “E logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o esposo e disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando os convidados já têm bebido bem, então serve o inferior. Mas não tu que guardaste até agora, o fim da festa, o bom vinho”. E assim foi o fim do Desafio Volta Redonda-Rio das Ostras, o melhor ficou para o último dia.

Diferente dos três primeiros dias de pedalada a segunda feira, 17/12/2012, começou radiosa. Eu e o mano Pedrão tocamos pela avenida central de Nova Friburgo, corremos pela estrada que desce para o Rio de Janeiro e ao chegar em Mury entramos à esquerda e tocamos para Lumiar. Apesar do sol grandioso as bikes rodavam sob um arvoredo que sombreava nosso caminho. O último dia de pedalada parecia o primeiro. Tanto eu como o amigo Pedrão sentíamo-nos cheios de força e animação.

Ainda andávamos sobre as serras e ali é um sobe e desce de morros que fazia bem variado o exercício. Os músculos das pernas, das costas, dos braços e da barriga se retezavam e se distendiam num ritmo intenso. Um vento fresco fazia o suor do uniforme ficar geladinho quando pegávamos uma boa descida. Era tudo festa e alegria. Grandes batólitos, imensos granitos, margeavam a estrada que serpenteava entre as matas.

Chegou Lumiar e... que decepção, uma vila de casas sem graça. Meu Deus, cadê o sonhado recanto com um regato limpinho levando e lavando as imundícies do mundo? Meus olhos não conseguiram ver a “água virar vinho”. Comemos uma melancia geladinha e continuamos, agora, para baixo, para o nível do mar, chega de serras. Descidas maravilhosas, a bike solta, os dedos só tocando de leve as manetes dos freios e as curvas em que a magrela fazia ângulos incríveis controlando as forças de gravidade e centrífuga. Era tudo um festival.

Não se pode negar que num final de festa sempre há alguma briga ou desentendimento, o último trecho de nossa viagem não podia ser diferente. Embriagados de tantas belezas, com a taxa de adrenalina nas veias bem alta o camarada Pedrão e eu não conseguimos evitar um desacordo. Conforme planejado chegaríamos em Rio das Ostras e depois de um banho de mar entraríamos no carro voltando para casa. Estávamos numa das últimas descidas, onde tem um sapão em cima de uma rocha, quando ele avisou: Seu Zé, não fique aborrecido comigo, mas não volto hoje pra casa. Viajamos amanhã. Não me queira mal.

 Diz o livro santo que não se deve retrucar sob irritação ou surpresa: deixe o tempo rolar um pouquinho. E logo adiante apareceu o casario de Casimiro de Abreu lá em baixo. Entramos na cidade bem junto a rodoviária onde vários ônibus faziam um pausa na viagem. Entramos num restaurante ali ao lado, nos servimos e almoçamos em paz. Na hora da sobremesa disparei: Amigo Pedrão, meu alvará de soltura expira hoje, prometi a “dona” Lili estar em casa até 20 horas pra levar Malu pra passear. Assim, decidi botar a bike no bagageiro de um ônibus para o Rio. Sigo agora mesmo. Termine por nós dois o Desafio que acaba em Rio das Ostras e  também pegue uma praia por mim. Não me queira mal.

Abraçamos-nos e nos separamos mais que os dois amigos que começaram esta festa de ciclismo três dias atrás, éramos então dois irmãos. Parafraseando Latino: Hoje é festa lá no meu apê, Tem muita bike Até amanhecer.

publicado por joseadal às 14:21

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